Maranduba

sábado, 17 de março de 2012


Suicide Solution

Eu tinha 6 anos e uma faca em minhas mãos com a ponta voltada para o meu peito. Um movimento e a dor teria fim.

Alguns anos após esse episódio eu li num livro que o suicídio é um ato de covardia, e eu fiz dessa uma das minhas verdades. Eu nunca iria me suicidar porque ela era a solução fácil e eu odeio os caminhos fáceis. Viver é que é difícil e eu continuei vivendo, repetindo mentalmente nos piores momentos: não desista.

Não deve ser muito comum as pessoas lidarem tão cedo com suicídio, mas acho que isso sempre foi uma vantagem minha. Enquanto as pessoas começavam a pensar nele eu já havia praticamente o esquecido. As pessoas pareciam me procurar para falar sobre isso porque eu era o único que conseguia lidar com o tema. E eu tive que lidar algumas vezes. Segurei suas mãos, pedi para que elas nunca mais fizessem aquilo.

Eu havia decidido não me suidar, mas muitas vezes eu desejei que a dor tivesse um fim. Eu me deitava embaixo de uns eucaliptos esperando que um dos seus galhos caíssem sobre mim. Ou então ficava na cama desejando que a laje cedesse e viesse abaixo. Às vezes eu dava um empurrãozinho a mais, andando perdido na noite embriagado, mas sempre achava o caminho de casa.

O suicídio sempre esteve a minha volta e eu também procurei por ele. Guardei as palavras finais de Leila Lopes: "Eu quero paz! Estou cansada, cansada de cabeça! Não aguento mais pensar, pagar contas, resolver problemas... Vocês dirão: Todos vivem!!! Mas eu decidi que posso parar com isso..."; assisti os passos finais de Virgínia Wolf no filme "As horas";  li Hemingway; ouvi Joy Division.

A vida nunca teve um sentido para mim, mas não acho que ela seja ruim. Também não acredito que exista algo para mim depois de morrer. Essa crença e meu aguçado princípio inato de autopreservação me impelem a continuar vivendo. A morte virá, talvez antes e eu acabar de escrever este texto. Só me resta aguardar pacientemente por ela.

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sexta-feira, 9 de março de 2012


Eu sou filho e herdeiro de nada em particular

... que queria fazer faculdade de jornalismo.

- Jornalismo é humanas.

Eu pensei por uns instantes, percebi que ela não havia me levado a sério. Ela não conhecia todo o meu background, meu antigo sonho de ser escritor. Nem eu mesmo levava esse sonho a sério. Era mais uma toque dado pela minha voz interior. 

- Eu abriria uma exceção para o jornalismo. Acho que apesar de ser humanas não tem tanto a ver com pessoas, e sim com a verdade. Não é muito diferente de ser um cientista. 

***

- Eu não sabia que era verdade esse lance de fazer jornalismo. 

- Não é. É mais uma das coisas que eu resolvi por impulso, mas que com certeza vou mudar de ideia. Ultimamente tem aparecido muitas dessas. 

Eu sempre me perguntei: será que as pessoas realmente acreditam no que dizem? Será que elas realmente se vestem de certa forma e dizem "é assim que eu me visto". E que fazem aulas de dança e consideram aquela atividade como uma parte intrínseca do seu ser. Será que elas não vêem, como eu vejo, que tudo isso não passam de distrações para ocupar o tempo livre. Qual diferença de alguém que fica a noite inteira deitado no sofá vendo televisão? Ou então alguém que usa alguma coisa para gastar seu tempo em um barato? Eu nunca consegui definir algo para minha vida, algo que eu pudesse dizer que eu fazia porque eu achava que era certo. 

***

- Vamos viajar para a Europa no ano que vem? 

- Eu não tenho nada para fazer na Europa. 

Por que conhecer um lugar que você nunca esteve antes é importante? Por que praticar atividades físicas vai fazer bem se amanhã você pode morrer atropelado? Por que ler um livro ou ir a um museu? 

Temos que preencher nosso tempo livre com alguma coisa. A maioria das pessoas parecem fazer isso com naturalidade. Assistem futebol, aprendem a tocar um instrumento musical, vão jogar pôquer online. Essas coisas definem elas, como o cara que curte futebol, o que toca um instrumento musical, o jogador de pôquer. Parece que é apenas questão de escolher. Eu não consigo fazer isso. Eu faço várias coisas para matar o tempo, mas o tempo todo eu sei que são apenas coisas para matar o tempo. Eu não consigo me enganar do contrário.

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sábado, 25 de fevereiro de 2012


Morrer ao seu lado, bem, o prazer e o privilégio seriam meus

Como você me explicaria por que uma garota cega com síndrome de down está rindo? Recentemente eu estava no terminal de ônibus e não conseguia entender sua felicidade. Ela ouvia pessoas passarem, tentava tocá-las e pulava e sorria de alegria. O absurdo dessa história não estava nessa cena, mas em mim, ao observá-la e não conseguir compreender como era possível. Para mim, ela deveria ser eternamente triste, por toda a injustiça da sua vida.

Eu, homem branco, jovem, saudável, tendo onde morar, o tipo que menos sofre com preconceitos da sociedade, sinto como se houvesse uma nuvem o tempo todo sobre mim. Vivo dizendo: "minha vida é uma merda! tudo é uma merda! eu nem deveria estar aqui!", e a garota rindo. Devem ter muitos momentos que ela chora, que ela sente uma dor verdadeira, praticamente física, mas naquele instante que nós nos cruzamos, como era possível ela sorrir?

Coisas boas acontecem comigo e muitas vezes o mundo é injusto a meu favor. E com certeza não sou do tipo que chora pelo sofrimento alheio. Eu choro pel"a vida inteira que podia ter sido e não foi", e não consigo estar contente, com a vida que podia ter sido e foi. Eu sofro por todas as coisas que fiz, e por todas que não fiz. Para mim, a vida é um grande arrependimento. E a garota estava feliz simplesmente por estar perto de outras pessoas e poder tocá-las.

Como você me explicaria o mistério da garota cega com síndrome de down que ri? Como você explicaria a essa garota por que homem abençoado está sofrendo? Eu fecho os olhos, ouço passos das pessoas que passam por mim, sinto o vento que elas produzem, o cheiro das garotas que acabaram de se lavar e se perfumar, a saliva em minha boca. Não tento tocar as pessoas. A sociedade me reprovaria. Talvez aí esteja a resposta para o mistério.

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


Nós, os do lado de cá, estaremos bem até o dia que os pobres descobrirem como fazer bombas atômicas no porão de casa

 Ler Bukowski é como nadar em merda a procura de pérolas. Mas quando se acha...

"Peguei minha garrafa e fui pro meu quarto. Fiquei só de cueca e deitei na cama. Nada estava em sintonia, nunca. As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas à mão, vôos a jato, Nova York, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte. Acho legal ter uma escolha.

Eu tinha feito minha escolha. Ergui a garrafa de vodca e dei um vasto gole. Alguma coisa aqueles russos sabiam."

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011


E a velha a fiar

Eu assisti a um vídeo entitulado We All Want to Be Young e o motivo de não colocá-lo aqui no post acho que você vai enteder daqui a pouco. O vídeo fala da influência dos jovens - 18 a 24 anos - e seu impacto na economia. Eu acho um pouco de exagero dizer que o vídeo é resultado de uns estudo de 5 anos, - acho que não precisaria de tudo isso - mas é bem interessante. Se você quiser saber sobre o vídeo vá assistí-lo, não é sobre ele que eu quero falar, mas sobre o que se passou na minha cabeça ao vê-lo.

O motivo da influência dos jovens é por um fator inerente, eles são sexualmente atraentes e divertidos. Logo de cara eu pensei comigo: então eu não sou sexy e sou chato. Você pode dizer que eu ainda sou jovem, mas eu já não tenho tanta certeza: muitos jogadores de futebol e cantores de dupla sertaneja são mais novos que eu e meus cabelos começaram a cair. Eu também já não me interesso muito pelas novas tecnologias e costumo dizer que as coisas no meu tempo eram melhores.

Eu acho que posso ser considerado dessa atual geração ainda sem nome - afinal o nome geralmente vem depois - ou pelo menos me sinto parte dela. Eu sempre tentei ser um pouco de tudo - ou um pouco de nada - e transitar entre diferente grupos, mas atualmente isso tem sido um pouco difícil porque eu já não arrisco tanto. Eu fui dormir cedo todos os dias neste final de semana e assisti ao filme The Tree of Life, que é excelente na minha opinião e da crítica, mas é um pé-no-saco. Coisa para gente velha.

Meu amigo - da minha idade - me disse que eu tenho que me adaptar a nova realidade e buscar a diversão que ela proporciona e não tentar ser eternamente jovem, sexy e divertido. Eu concordo com ele e muitas vezes já pensei assim, mas ainda tento manter o pouco que resta da minha juventude, melhorando minha aparência e copiando os jovens, afinal, todos nós queremos ser como eles. A vida não me parece ir muito além disso, um velho é exatamente como um jovem, que não é sexy, nem divertido.

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terça-feira, 4 de outubro de 2011


Don't try to fix me I'm not broken

A pia do banheiro era baixa e ele teve que se curvar para lavar o rosto, fazendo aparecer suas vértebras pelo meio do dorso. Ele normalmente voltaria à posição ereta para se encarar no espelho, mas desta vez se olhou ainda curvado. O Sol da manhã era forte e como estava bem perto sua visão curta não foi poupada em nada. Estava acostumado com a ideia do seu rosto atrás dos óculos, mas desta vez perscrutou ele, entrando em cada orifício, deslizando por linhas e se prendendo em nódoas.

- Como eu sou feio. Fui perto demais.

***

A noite era quente, mas ventava. O bar estava vazio e ele sentiu-se à vontade para conversar:

- A operação se chama Lasik.

- O que significa? - perguntou seu amigo, com quem fora para o bar.

- Só sei que é Laser alguma coisa.

- Sabe, não é só da cirurgia que estou com medo. Acho que estou com mais medo do que vem depois. Eu imagino que as pessoas olhem para mim e vejam meus óculos, talvez também vejam uma pinta e saibam que eu tenho cabelos castanhos curtos. Se eu não tivesse essas coisas acho que elas mal me reconheceriam. Fico me perguntando: será que elas vão me ver diferente? será que eu vou me tornar diferente?

- Beba logo sua cerveja.

***

Foi caminhando para o banco. O Sol queimava a sua pele, o suor escorria. Ele sentiu-se um animal, como se estivesse com medo o tempo todo. Ao entrar na fila do banco ele viu vários cabelos. Pensou que todos eles estavam crescendo naquele momento. Eles poderiam ser cortados, mas não parariam de crescer, era uma lei simples.

Pegou o dinheiro e enfiou no bolso, mantendo a mão lá. Em poucos dias não usaria mais óculos. Não entendia por que estava fazendo aquilo, mas sentiu que tinha esquecido o motivo.

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quinta-feira, 21 de julho de 2011


Sinapse

Desta vez eu queria ser uma pessoa decidida, eu vou ser uma pessoa decidida. Eu, nascido da Dúvida com a Incerteza, serei alguém de atitude, de pulso firme. Não mais me voltarei para o passado, nem procurarei no futuro, a resposta tem que estar no presente. Pois é apenas sobre o agora que se pode ter alguma certeza.

Uma vez me disseram que a beleza da decisão é que ela não tem que ser para sempre. A decisão é para o momento, e, com o fluxo contínuo da vida, ela também pode mudar. Ser uma pessoa decidida, portanto, não significa ser uma pessoa coerente o tempo todo, nem mesmo focada, mas apenas aquela que sabe definir sua posição.

A vida nunca foi fácil para mim. Enquanto as pessoas pediam o sorvete de chocolate eu estava entre o de morango, o de milho verde, o de abacaxi ao vinho, o de amendoim, e também o de chocolate, e ficava pior quando eram duas bolas. Mas dessa vez eu quero ser o primeiro a pedir, aquele que sabe que quer o de flocos.

Não quero pensar no porquê eu quero o que quero, eu quero apenas querer e, se possível, ter. Porque eu tenho vontade, eu morro de vontade, e urge. Esses serão os motivos da minha decisão. Momento, vontade, oportunidade. Agora mesmo, escrevi esse texto porque eu quis, e porque não escrevi outro, eu não quero nem saber.

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domingo, 13 de fevereiro de 2011


Uma história de amor

Sempre que eu pensava naqueles dias era um sentimento ruim que me vinha. Achava-me idiota, fraco e culpado por ter ido vê-la. Eu me sentia assim porque vivia um momento diferente, mas a maneira como penso hoje é muito mais próxima àqueles dias do que esse negativismo que veio depois. Hoje os relembro como grandes momentos da minha vida e se tivesse tanta consciência quanto tenho atualmente sobre a finitude da vida, eu teria buscado mais dias como aqueles.

Nós havíamos tido um relacionamento amoroso no início e ela sempre me dizia que um dia descobriríamos que, na verdade, éramos grandes amigos. Eu aceitei tentar manter essa amizade com o fim do nosso relacionamento, mesmo contrariando o que a sociedade, o senso comum, diz a respeito disso. A primeira vez que nos encontramos depois de terminarmos foi estranho. Éramos como atores que ainda não sabiam como interpretar seus papéis, embora eu não possa falar por ela. Quando fazia-se um silêncio eu tinha que dizer algo, quando nos tocávamos sem querer eu me apressava para desviar do próximo, eu evitava olhá-la, não apenas nos olhos, mas em qualquer parte do corpo.

Eu não a via com muita frequência, mas de tempos em tempos eu ia visitá-la. Fui me acostumando com a nossa situação e os nossos encontros começaram a se tornar menos constrangedores. Às vezes eu ia à sua casa e ficávamos sozinhos por horas conversando, vendo filmes, assaltando a geladeira, até mesmo lavando louça juntos. De certa forma nos entregávamos um ao outro mais nesses momentos do que durante o nosso relacionamento amoroso, mas, novamente, não calço seus sapatos. Eu me sentia feliz enquanto estava com ela, porém no instante exato em que nos separávamos eu pensava comigo mesmo: o que eu vim fazer aqui?

É óbvio que eu me confundia, até hoje me confundo. Às vezes ela fazia uma piada genial e no meio dos risos eu a olhava e pensava o que vem agora? Mas para nós havia sempre uma linha que não podia ser transposta, então eu ficava sério e continuava a olhá-la e ela me devolvia um olhar de interrogação, às vezes até perguntava: o que foi? e eu dizia: nada. Quando saía de casa para ir me encontrar com ela, eu já sabia e até me dizia que nada além iria acontecer e aceitava isso de bom grado para passar uns momentos com ela, mas conforme o tempo do nosso encontro ia se esgotando e eu não podia pedir para ficar, ou para ela ir comigo, eu não conseguia mais simplesmente aproveitar o momento.

Ela tinha razão, nós éramos grandes amigos, porém, quando tínhamos que nos despedir, eu à abraçava forte e perdia a noção do tempo e ficava em silêncio, sentindo a forma do seu corpo, o cheiro do seu cabelo, mas uma hora eu tinha que soltá-la. Fazia isso num impulso, virava as costas e ia. Então eu pensava que aqueles momentos não valiam a pena e me afastava novamente.

Um dia ela começou a namorar, ou talvez tenha sido eu, e paramos de nos ver. Ainda nos falávamos, mas começaram a surgir muitos assuntos proibidos. Depois de um tempo eu preferia não saber sobre a felicidade dela e comecei a me achar idiota, fraco e culpado por ter ido vê-la tantas vezes. Fiquei muito tempo assim, e quando quis saber como ela estava já era tarde demais. Narrei essa história muitas vezes de maneira ruim, essa é a primeira vez que eu quis contá-la pateticamente como uma história de amor.

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


O homem que não estava lá

Sim, eu era da faculdade.

Embora eu sentisse que não pertencia à ela, as pessoas sabiam que eu era de lá. Vagando pelo campus, viajando no ônibus interno, almoçando e jantando todos os dias no restaurante universitário, quase sempre sozinho. Eu observava as outras pessoas da faculdade falarem, e como elas falavam. Isso parecia satisfazê-las. Eu... não falo muito.

Na faculdade quase ninguém me conhecia, ninguém queria me conhecer, mas eu não as culpo. Eu fazia o tipo de que sabia mais do que o resto do mundo, embora já tivesse admitido minha ordinariedade a muito tempo. Era apenas uma personalidade arraigada. Apesar de eu não saber de muita coisa no colégio, eu era mais esperto.

Não que fosse uma regra, mas não era incomum eu despertar interesse em alguém naquela época. Talvez porque os adolescentes se interessem mais facilmente uns pelos outros. Eu não era bonito, menos do que na faculdade, mas eu conseguia me destacar. As pessoas gostavam de me ouvir falar e eu me esforçava em dizer algo.

Eu era um adolescente que se atraía por tecnologia, literatura, filosofia, jogos, cinema, música e principalmente pela condição humana, e tornei-me um adulto que, ainda flerta com todas essas coisas, mas não fez nenhuma viagem internacional, e esse é o tipo de coisa que importa na sua idade. Eu não era mais interessante para ninguém, mas, também, nada disso me interessava.

Então hoje eu resolvi escrever meus pensamentos e aqui estou eu, tentando encontrar um outro lugar no mundo para mim. Talvez a Doris esteja lá e talvez lá lhe possa dizer todas aquelas coisas para as quais não há palavras aqui.

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010


True story

Crianças, no ano de 2010 eu acreditava que a noite poderia me levar a lugares inesperados e trazer novas experiências que nunca aconteceriam caso eu ficasse em casa. No entanto, em toda vida do seu velho homem, essas experiências geralmente foram desagradáveis, como dormir na garagem dentro do carro com o seu tio Sangalli. Para o tio Diego essa mesma noite reservava algo bastante improvável, cuja probabilidade é de seiscentos e quarenta e nove mil, setecentos e trinta e nove para um, um Royal Straight Flush. Mas eu vou chegar aí depois.

Às onze p.m., o tio Sangalli e eu fomos à pé para um bar depois de tomar um shots da cachaça São Francisco na república, seguindo a tradição de ler o texto da garrafa antes de virar. No bar seguimos tomando cerveja e passamos as primeiras duas horas conversando sobre assuntos gerais até o momento que decidimos que só poderíamos falar sobre um tópico: mulher. Como de costume, nós estávamos procurando a number two da balada, a garota que todos concordam que, tirando a number one que é uma escolha pessoal, é a mais atraente. Entretanto nossas opiniões divergiam. Ele elegeu uma garota semi-gótica e eu uma de olhos verdes e pele cor-de-caixa-de-papelão.

Fui ao banheiro enquanto o tio Sangalli foi pegar uma cerveja. Encontrei ele no balcão e comentei sobre um pôster que achei interessante onde estava escrito "live, laugh, love". Depois passamos dar uma olhada na banda que estava tocando uma música cuja letra dizia "eu vi uma criança dormindo e lembrei de você", o que rendeu mais uns minutos de discussão off-topic sobre se o conteúdo fazia alusão à pedofilia. Quando voltamos ao local onde estávamos antes, o tio Sangalli me perguntou quais eram mesmo as três palavras do poster e eu repeti: "live, laugh, love" e ele disse: "faltou uma importante: lesbian" e apontou para duas garotas se beijando que, coincidentemente, eram as duas garotas que cada um de nós tínhamos escolhido como number two. A partir daí ficamos assistindo algo bonito que estava acontecendo e achávamos que já tínhamos ganhado a noite, mas ela ainda guardava suas surpresas.

Já passava das três quando resolvemos ir embora e no caminho o tio Sangalli propôs apostarmos uma corrida até o condomínio. Eu rejeitei, mas logo depois vi algo que me fez cagar tijolos, então saí em disparada e ele atrás de mim. Eu tive que parar porque meu celular começou a tocar. Era o tio Diego. Eu atendi ofegante e ele achou que tinha ligado em hora inoportuna, mas eu expliquei que era só uma corrida de madrugada e então ele me disse: "bro, acabou de acontecer algo legen... espere um pouco... mais um pouco... dário", era o Royal Straight Flush. Ele tinha ido num clube de poker com o tio Maia, coisa que eles faziam toda sexta-feira, e nessa noite conseguiram chegar na mesa final e ganhar algum dinheiro. O tio Sangalli e eu não tivemos a mesma sorte.

Quando chegamos no apartamento a porta não abria. Tentamos dezenas de vezes girar a chave, forçando o máximo que conseguíamos. Batemos na porta, tocamos a campainha, ligamos no telefone, na esperança de que houvesse algum outro morador da república que pudesse abrir por dentro, mas ninguém atendeu. O tio Sangalli estava com a chave do carro dele, então resolvemos sair para comer e decidirmos o que iríamos fazer, mas, depois de um bar, uma corrida e um lanche não havia nada mais tentador do que dormir, então voltamos para a garagem do condomínio e dormimos no carro.

Na manhã seguinte eu acordei com dores nas pernas e nos órgão internos. Eu estava contando a história para o porteiro quando encontrei um dos moradores da república que poderia ter aberto a porta de madrugada. Ele disse que não ouviu nada e que a chave dele funcionou normalmente. Eu fiquei inconformado que ele não tenha atendido a porta e que por isso ficamos para fora, mas a culpa não era dele, era da noite e suas vicissitudes.

Faltou contar que nessa noite nós combinamos uma viagem que eu achei que não fosse acontecer, que era só um plano que você faz quando está bêbado e esquece no dia seguinte. No final do ano de 2010 ela acabou acontecendo, mas eu vou deixar para contar essa história depois.

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Epígrafe


Não desisti. Eu percebi que não ia rolar.

Blogsfera


Noites de Insônia

Vezes Quatro (novo)
O cotidiano contado com empolgação!

Poeira Eletrônica
Eis um tributo às toneladas de arquivos q são excluídos a todo milésimo de segundo nessa incomensurável rede. Para onde irão todos eles? ... Aqui não se deleta nada, ao contrário, faz-se back up.

Fragmentos
Just my thoughts

.n.i.g.h.t.s.w.i.m.m.i.n.g.
Nem tão tranqüila e nem tão infalível como Bruce Lee

Papo de Nerds

Tarrasque arqueiro

Vezes Quatro
Porque tudo é feito com empolgação...

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