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sábado, 24 de outubro de 2009
Si quieres que dure, no inventes a tu pareja
Nos casamos no ano passado. Casar é jeito de falar, porque não teve livro assinado, troca de aliança no altar. Mas ainda vamos fazer festa, só que ninguém vai ter que ir de sapato ou vestido, pode ir de jeans e tênis. Ela mesmo entraria de camiseta branca e eu a esperaria de bermuda ao som de Candy. Alguém sopraria que é a hora dos votos e eu diria, na pobreza ou na pobreza, na doença ou na doença, só a alegria que não dá para deixar de fora porque estaria mentindo. Vivemos bem juntos, respeitando nossos espaços: computadores e quartos separados. Mas ela vem me chamar quando está frio e eu quando quero acordar cedo. Sempre fazemos a janta juntos, ouvindo rádio, e eu vou beijar o seu pescoço enquanto ela corta os legumes. O prato é quase sempre de comida vegetariana, mas às vezes eu faço calabreza acebolada e ela também come a cebola. Entre uma mexida na panela e outra nós dançamos e falamos sobre tudo, quase sempre rindo. Depois da janta ela me manda estudar. Eu faço um trabalho com redes de computadores virtualizadas e ela tem um projeto com reúso de água. Nossa casa é um misto de hi-tech e ecologicamente correta. Separamos o lixo, temos Internet banda larga, reaproveitamos a água da cozinha para lavar a área, um sensor de luz apaga as lâmpadas, a água do banho é aquecida por uma serpentina no telhado, toda semana assistimos filme no projetor da sala. Eu geralmente escolho comédias toscas e ela Almodóvar. Além da comida e dos filmes fazemos várias outras coisas juntos. Começamos a aprender música, ela quis tocar flauta e eu piano. Também estudamos inglês, ela chega e me diz: good evening e eu digo: I have waited all day long to see you, quando quero algo e então beijo toda a pele salgada do seu corpo, nos amamos no tapete e tomamos banho juntos. Nunca marcamos com antecedência, às vezes rola de manhã à meia luz do Sol nascente, outras semi-alcoolizados depois da balada, e até na piscina do clube. Mas nem tudo são mil maravilhas, também brigamos. Quando ela percebe que eu estou estranho vai visitar as amigas em outra cidade e me deixa sozinho. Às vezes saio de balada com meus amigos, mas geralmente só preciso de um tempo para sentir falta dela, é quando eu escrevo textos como este. Não há nada que dure para sempre, e é por isso que queremos aproveitar ao máximo o tempo que temos, morando juntos, até que fiquemos completamente enjoados um do outro.
Publicado por Milton à 02:31 |
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Doze horas desalmadas
Uma força me prende ao computador antes de ir dormir. Já é tarde, os minutos passam, mais uma música, tento prestar atenção, mas me distraio. A cada vez que olho o relógio percebo que perdi mais um pouco do meu sono, mas a força não me deixa ir dormir. Quase que num impulso corro até a cama e me atiro à ela, sem ter escovado os dentes, mijado ou tomado um copo d'água. Fecho os olhos com força, na esperança de que o sono venha logo, mas ele não vem, fico por um tempo indeterminado pensando em tudo que eu tenho que fazer. Enfim sinto a descarga de uma substância que percorre o meu corpo e estranhamente me deixa mais alerta por alguns instantes, mas cujo significado eu conheço: vou dormir. O celular toca, minha boca está seca, minha bexiga cheia e sinto uma dor no fundo da garganta. Passo a língua no céu da boca e sinto que há sobre ela uma capa formada pelos seres que vivem nas minhas mucosas. Go away, digo silenciosamente a eles de maneira já automática depois de meses. Devo levantar agora, mas a força que me afastava do meu afazer de dormir agora não me deixa sair da cama, sinto-me atado à ela, mas não posso cair no sono novamente. Vou pensando naquelas coisas que eu tenho que fazer para me manter acordado e assim sinto como se estivesse fazendo algo útil. Minutos se passam e já com o cérebro em funcionamento penso em me levantar, mas só consigo através de um ardil. Finjo estar levantando só para uma inocente mijada, mas uma vez de pé não volto a me deitar. Rastejo até o banheiro, faço meu tão merecido mijo e assôo o nariz com toda a força dos meus pulmões. Surge um catarro amarelado: go away. Olho-me ao espelho: barba comprida, olheiras, cabelos desgrenhados, deixo estar. Só jogo um pouco de água no rosto e vou até a cozinha. Acabou quase tudo. Tomo um copo d'água com duas fatias de pão de forma já quase vencido. Escovo os dentes em dez segundos, passo um creme para pentear no cabelo e ajeito com as mãos. Volto para o quarto, pego a calça que deixei jogada no dia anterior, coloco a mesma meia da semana, o tênis. Passo o desodorante e antes de secar já coloco uma camiseta por cima apressado. Dou passos largos agora, enfio várias coisas que estão jogadas sobre a mesa do computador na mochila rasgada. Procuro carteira, chave, celular e saio, deixando a cama desfeita, as louças acumuladas e a porta do armário aberta. Caminho com o nariz escorrendo pensando nas coisas que terei que fazer em breve. Chego a aula que já começou e procuro um lugar que não tenha ninguém ao lado. Sento num canto e encosto à parede. Não consigo manter-me atento e algumas vezes os olhos fecham-se e demoram a se abrir. Saio para limpar o nariz e aproveito para chupar um pouco de água do bebedouro. Terminada a aula, saio apressado antes que alguém resolva falar comigo. Vou ao laboratório, remeto um bom dia inaudível e sento-me ao computador do canto. Penso nas coisas que tenho que fazer, mas a força não me deixa começar, fico por algum tempo no msn. Saio para o almoço antes que alguém se convide para ir junto e cruzo rapidamente o corredor. Faz muito calor, chego suando no restaurante, cruzo com conhecidos e finjo não vê-los. Passo pela catraca, desço a rampa, pego a bandeja, passo pelos trilhos sem olhar para as pessoas que trabalham no local, procuro o local mais afastado para sentar, como em sete minutos, saio. Ando mais devagar, chego em casa, a força não me deixa escovar os dentes. Deito-me do jeito que cheguei e fico.
Publicado por Milton à 00:47 |
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Autobiografia Freudexplicativa
Estou em meio a um choro convulsionante, entre soluços. Afogo-me em lágrimas ao lembrar-me de todas as vezes que estive em pranto e que, de certa maneira, tem algo em comum. Como aquela vez, na festa de aniversário do meu irmão, em que sua professora quis dar-me um beijo. Ela, uma mulher jovem, estava arraigada nos meus desejos mais instintivos. Eu, apenas uma criança, não conseguiria esconder minha vontade ao ser beijado e por isso tranquei-me no quarto e escondi-me debaixo da cama para chorar durante toda a festa. Ainda criança, uma vez eu troquei empurrões e pontapés com um garoto que mexeu comigo. Não passou disso e já voltava para casa quando encontro minha mãe na rua e não consegui segurar as lágrimas, sentindo-me humilhado. Embora não tenha apenas apanhado, nessa época eu sentia-me um herói, capaz de prover pelos mais fracos, mas nem a mim mesmo podia defender-me. Na adolescência houve uma garota que foi responsável. Não ela em si, mas o fato de eu ter sido rejeitado, depois de ter acreditado tanto, por boatos, que podia conquistá-la. Chorei sentado ao chuveiro. E outra vez, no ônibus, voltando do trabalho, onde a última coisa que fiz foi ver o resultado do vestibular. Novamente eu havia me superestimado e naquele dia percebi que não seria ninguém. Então já me compreendia impotente, covarde, feio, burro, mas ainda tinha meus heróis. Ver também suas fraquezas deve ter sido a coisa mais sofrida em minha vida. Aquele dia, depois da visita, sozinho no carro, eu me encolhi no banco de trás soluçando. Aquele homem que me causava tanta admiração e medo, que me dera a vida, estava caído. Não era poderoso, era só um homem cheio de defeitos como todos os outros. De certa forma, isso já tinha se anunciado uma vez que minha mãe e eu choramos juntos, quando fui contar-lhe que não largaria meu emprego para estudar, pois sabia que não poderiam carregar esse fardo. Já um jovem adulto, derramei lágrimas uma noite e uma manhã por não ter sido capaz de controlar-me, ter bebido demais e estragado tudo. Começou quando me encarei no espelho e vi minha imundícia. Depois no gramado e no carro, pedindo que se afastassem de mim. Por fim, na cama de manhã, ao recordar-me. Sentia-me horrível por fazer mal a pessoas que eu só desejava o bem. De anti-herói passei a vilão. E é por toda essa miséria, por toda essa impotência, que choro.
Publicado por Milton à 02:23 |
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Highway 61 Revisited
Olá, lembra de mim? Estou escrevendo para saber se vc me passou seu e-mail de verdade, hahuahuahua. Gostei muito da nossa conversa de hoje à tarde, quando cheguei em casa lembrei de mais um monte de coisas e acho q poderíamos continuar outro dia, se vc quiser... vc tem icq? Flw. Olá, há quanto tempo, huahuauha. Acabei de reler o histórico da nossa conversa de cinco horas desta noite... me impressiono q o assunto nunca acabe, acho q temos muito em comum... vc tem se tornado uma pessoa especial para mim... embora eu goste das nossas conversas pelo icq eu acho q talvez a gente pudesse tentar se falar mais pessoalmente, ou talvez seja melhor mantermos nossa relação virtualmente... Olá. Desculpe demorar tanto tempo para entrar em contato, é q ontem eu estava meio sem cabeça, me sentindo meio etéreo, como dentro de um sonho, sem conseguir tirar o sorriso do rosto... também fiquei com medo de ligar. Gostaria de saber se vc quer sair de novo um dia desses para ir ao cinema, ou dar um passeio, ou sei lá. Beijos virtuais. Olá, td bem? Fiquei pensando na nossa conversa e não sei se eu disse o q eu realmente queria dizer. Sei q temos muitas barreiras q nos impedem de nos encontrarmos, mas será q não vale a pena lutar contra isso? tentar mais uma vez? Eu estou me sentindo muito mal pq é como se eu tivesse ganhado algo muito bom q de repente me foi tirado. Posso encontrar vc de novo amanhã? Olá. Já faz tempo q não conversamos, nem me lembro quando foi a última vez. Achei q minha nova vida conseguisse me fazer esquecer de vc e eu pudesse seguir em frente, mas ainda me sinto acorrentado aos meus sentimentos. A culpa não é sua, mas eu precisava compartilhar isso para ser mais fácil aceitar q tudo acabou. Desculpe, sinceramente... Olá. Fiquei sabendo da notícia pelo seu blog, esperava q vc pelo menos me contasse. Embora separados fisicamente, lendo o q vc escreve e escrevendo para vc no meu blog era como se ainda mantivéssemos algum tipo de contato e eu sentia q vc ainda estivesse de alguma maneira próxima, mas agora q vc está namorando acho q vamos nos distanciar de vez. Seja feliz. Olá. Desculpe-me se escrever alguma coisa errado é q eu estou bêbado demais para conseguir escrever algo decente, mas não consegui resistir à tentação. Tenho medo de lhe escrever e q seu namorado leia, mas q se dane agora. Eu já fiz de tudo para te esquecer, mas fico vulnerável quando bebo e acabo fazendo besteira, como agora. Por favor, me perdoe. Olá, há quanto tempo. Fiquei surpreso com o seu e-mail e não sei muito bem o q dizer. Passei todos estes anos sofrendo por acreditar q eu te amasse e q vc não desse a mínima para mim. Agora já não sei muito bem o q eu sinto, mas saiba q não consegui deixar de pensar em vc. Acho q precisamos conversar, aparece algum dia desses no msn... Olá, como está? Fiquei triste por não ter conseguido ver vc este final de semana e por saber q provavelmente só terei outra oportunidade daqui a duas semanas. Apesar de toda a nossa distância, eu ainda não entendo como duas pessoas q gostam uma da outra não conseguem ficar juntas e às vezes acho q o universo conspira contra a gente. Melhoras. Olá. Vi q vc mudou o campo de relacionamento do seu orkut e meio q já esperava por isso quando vc tirou a frase sobre aprendizado com relacionamentos anteriores. Desta vez nem consegui sentir raiva, mas eu pensei: "outra vez... agora chega". De qq maneira, acho q já perdi todo o meu orgulho, então se por acaso não der certo com seu novo namorado, apenas let me know. Olá, vc recebeu meu sms? Estava de viagem e não tinha acesso à Internet, foi mal. Fiquei preocupado, mas agora q li seu testimonial acho q não era nada grave. Vc tem voltado? acho q a gente podia se encontrar um dia desses... qq coisa é só me mandar um e-mail, ou um scrap, ou um testimonial, ou uma mensagem offline, ou um sms, ou um telegrama, ou um sinal de fumaça.... t+. Olá, tudo bem e vc? Não tenho pensado em muita coisa ultimamente, acho q estou com algum tipo de bloqueio... também já perdi minha antiga inspiração para escrever e tenho escrito muito pouco. Sinto q fui castrado do meu clitóris emocional e mesmo quando penso no passado é friamente... acho q vou fazer como vc e criar um twitter e me limitar a uns aforismos. Beijos.
Publicado por Milton à 01:51 |
sábado, 25 de julho de 2009
Granola
As palavras mais importantes são a menores, mais primitivas; puros radicais não derivados - se amor tem importância, fim tem mais. Hoje eu senti a minha morte num exercício espontâneo; ao mesmo tempo morrida e matada - um suicídio; mas o principal foi o pós-mortem, quando friamente morto eu encontrei a pureza do nada; não havia um corpo estendido no chão, e questiono se a visão da própria morte não teria sido a razão da crença na alma; mas eu não vi nada, simplesmente não havia mais nada a sentir ou pensar ao final. Ando averiguando as corrupções que sofri na minha vida: nascemos puros; somos corrompidos; reproduzimo-nos em pessoas puras que serão corrompidas por nós; envelhecemos tentando recuperarmo-nos dos prejuízos, mas eles acumulam-se; e morremos; usei este ciclo para ilustrar a corrupção que sofremos, quando um prejuízo como esse nos é ensinado - quem disse que a vida é isso? pode ser para alguém, mas não precisa ser para todo mundo; e misturei de propósito a corrupção, pois para mim viver é isso - lutar constantemente contra tudo que foi-me imposto sem eu perceber, buscar a liberdade. A atual mulher dos meus sonhos é feia. Por que um texto tem que ter estrutura? por que os sinais gráficos tem que serem usados de uma forma padrão e não do jeito que a gente acha melhor? devemos elogiar e deixar florescer a criatividade, antes da técnica, antes do conhecimento, antes até mesmo da clareza - antes e não acima. Envelhecer nos faz querer respeito; quando somos jovens sofremos por desrespeito, sentimos humilhação, mas aceitamo-lo como parte da nossa condição de jovens; com o tempo a aceitação diminui e protegemo-nos de todas as formas para que não aconteça - é assim que perdemos as maiores chances da nossa vida. Gosto das ações e pensamentos paradoxais: falar de amor quando se leva um soco; contar uma piada que não tem graça; fugir quando há todas as razões para ficar; uma japonesa com sotaque do Recife; tomar café para dormir – da idéia do absurdo.
Publicado por Milton à 03:35 |
sábado, 18 de julho de 2009
Parcimônia
S: Our relationship is like an addiction. It's— like— H: Really good drugs? S: No, it's like— vindaloo curry. H: Ok, sure— S: Really, really hot Indian curry they make with red chilli peppers. H: I know what it is! Didn't think it was addictive. S: You're abrasive and annoying and come on way too strong, like... vindaloo curry. When you're crazy about curry, that's fine but no matter how much you love curry, you have too much of it, it takes the roof of your mouth off. And then you never want to see curry for a really, really long time but you wake up one day and you think... god I really miss curry .
Publicado por Milton à 04:18 |
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Pelo menos a gente tá escrevendo
Crise é a palavra do momento. A financeira é a mais óbvia e tem também a política. A crise da representação vem desde o século XIX e a existencial ficou conhecida como o mal do século seguinte. No atual, a ambiental parece ser a mais quente. Seja de qual tipo for, a tendência é haver crise. Como aponta o dicionário, a crise é um momento decisivo, em que uma situação é insustentável - ou toma-se o rumo da melhora ou do desenlace fatal. Ela está inserida na dialética, durante o hiato entre antítese e síntese. Essa forma evolucionária e progressista de pensar gera um otimismo, na esperança por algo que irá dissipar a crise e formar a nova tese, mas será que isso sempre acontece? E será que a crise não pode durar e aquilo que parecia intragável se tornar o novo dogma? Vê-se isso nas pessoas que passam a vida em crise. Elas não são levadas à morte e também não mudam, apenas se acomodam à condição. Mudança é a chave. As coisas mudam, os sistemas não acompanham e surgem as crises. Isso porque o mundo é muito burocrático. A propriedade intelectual, os direitos autorais, os meios de comunicação oficiais, são entraves para que pessoas comuns possam propor novos paradigmas, com a capacidade que todas elas tem - imaginação. É preciso haver mais liberdade de criação e de coragem para refatorar o sistema. Não há crise que acabe do dia para a noite, assim como não há gênios. Peguem este texto, expandam, modifiquem e divulguem-no ondem quiserem, não peçam-me permissão. O fim da acomodação com as idéias pré-concebidas virá quando as pessoas deixarem de se acomodar e acreditarem que podem fazer a diferença individualmente. Nunca haverá o fim de todas as crises, pois qualquer idéia um dia entra em crise, mas uma nova crise que induzirá a outra idéia.
Publicado por Milton à 02:55 |
sábado, 6 de junho de 2009
He put a quarter in the Wurlitzer, and he pushed three buttons and the thing began to whirl
A última vez que eu vi Richard foi em Americana em dois mil e sete e ele me disse - "Todos os românticos encontram o mesmo destino, sofrer por desilusão. Eu era um idealista no passado, acreditava em coisas que não são reais como o amor, a felicidade e escrevia sobre elas. Agora sou mais cruel, penso de maneira mais realista, como se eu já tivesse chegado ao final da vida por ter descoberto algo que acabou com os meus sonhos pueris, mas não sofro mais, enquanto os românticos continuam a se desiludir. Você ri?" - ele diz. - "Você acha que é imune? Olhe para sua boca desejosa por encontrar um novo amor. Você gosta de rosas e beijos e belos homens para te dizer todas aquelas belas mentiras, quando você irá perceber que são apenas belas mentiras?" Ele levantou a mão, pediu para fechar a conta com um sinal no ar. O garçom veio vestindo calças pretas e gravata borboleta e disse - "Se for passar cartão tem que ir no caixa." Eu paguei treze e vinte e cinco a mais para facilitar o troco - "Você não mudou nada" - eu disse. - "Você diz que se sente como um velho, que seu coração se tornou uma pedra, que gosta de ser uma pessoa solitária, mas isso tudo é uma romantização, não é possível ser tão duro assim. Você tem toda essa tristeza no olhar, mas os textos que você escreve ainda estão sonhando. Veja, eles falam de amor com tanta sensibilidade. Quando você irá se recuperar e voltar a acreditar no amor? O amor pode ser tão doce." Richard está sem ninguém agora. Passa as noites bebendo sozinho à frente do computador com todas as luzes da casa deixadas acesas. Ele sempre esteve fugindo e agora conseguiu ser abandonado por todos. Eu vou desligar este maldito mensageiro, não quero que ninguém venha falar comigo, eu não tenho nada para conversar com ninguém. Não pretendo me tornar uma pessoa patética que não comete erros na vida e que não sente nada com intensidade. Todos os bons sonhadores passam por isto algum dia, escondendo-se atrás de computadores em quartos escuros. Apenas uma concha escura antes que eu consiga me libertar e ir para longe. Apenas uma fase, estes dias de quartos escuros.
Publicado por Milton à 01:59 |
sábado, 16 de maio de 2009
Serenidade
Estava deitado no chão sem fazer nada. Enquanto tentava evitar qualquer pensamento que me ocorresse, vi uma folha no vento e fiquei observando-a deslizar. "Eu sou uma folha no vento", pensei. A folha deitou-se, como eu. Estávamos ambos no chão, sem fazer nada. Ou seria melhor dizer fazendo nada, ou ainda, nada fazendo. Não importa, o importante é que "menos é mais". Enquanto mantinha-me deitado no chão as pessoas passavam por mim, apontavam, faziam caretas, riam. Eu não me importava com elas, continuava. Afinal, "não existe humilhação". E eu sou apenas uma folha no vento, não preciso provar nada a ninguém. Não porque já fiz muitas coisas na vida ou porque as pessoas não me conhecem, mas porque não preciso mesmo.
Publicado por Milton à 00:51 |
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Abril
Entro na rodoviária; compro a passagem; escolho a rampa da esquerda para descer, embora a da direita seja mais caminho para chegar a minha plataforma de embarque; na descida, olho as pessoas na estação, com a expectativa de encontrar alguém - sem saber o que fazer caso encontre. Abro o mensageiro; informo os dados para minha autenticação; percorro a lista com os olhos, sabendo ao bater os olhos que quem eu esperava encontrar não está; novamente não faço idéia do que dizer, ou melhor, não tenho o que - já disse tudo e as palavras esgotaram-se. Ainda assim, escrevo; não sei se virá; se vier, não sei o que dirá; se disser, não sei o que responderei; se responder, não sei o que faremos; se fizermos, não sei o que acontecerá - talvez seja melhor que não aconteça, não façamos, não responda, não diga, não venha, não escreva. Brilho eterno de uma mente sem lembranças; vestígios de evolução em curso; evidências do evento de Tunguska; pegadas do abominável homem das neves; múmia do faraó Tutancâmon; rastro de carbono - mas ainda há um resquício.
Publicado por Milton à 23:53 |
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